3 de fev. de 2008

Carnaval? e Turismo Sexual


O carnaval é a apoteose da luxúria. Imagens, que em qualquer lugar do mundo ou em qualquer época do ano não passariam antes das 23 hs, são mostradas com a naturalidade de quem mostra uma pescaria.
O sexo gratuito é onipresente no carnaval. Que gênios são esses – os tais carnavalescos – que sempre apelam ao sexo mais explícito para chamar a atenção?!
Nada mais amadorístico e de mau gosto do que a apelação pura e simples. Junto a isto, gente nua o tempo todo e enredos sobre Kama Sutra e “bota a camisinha”, há uma campanha contra o turismo sexual. É muito cinismo.
Enquanto houver coisas como esse carnaval aí, o Brasil será o grande prostíbulo mundial, ambiente mais propício não existe. (em que lugar do mundo um turista é recebido do jeito das fotos acima? Fotos que busquei no jornal goiano O Popular). O que dirão esses senhores para seus amigos quando voltarem para casa?! Assinale-se a “fiscalização” feita pela Igreja Católica do Rio de Janeiro que todo ano censura alguns carros e temas muito abusivos.
É a troca de papéis, fica a Igreja se desgastando com um assunto que é tipificado no código penal.
Por que a justiça não proíbe o carnaval para menores e a Igreja não orienta seus fiéis a ignorar a tal suruba, como fazem as igrejas protestantes?! É a cara do brasileiro essa justiça omissa e essa religião sem compromisso.


A Festa da Carne

O Carnaval Pagão é uma festa que tem sua origem nos cultos agrários da Grécia, em que se celebrava a fertilidade e produtividade do solo.

Pisistráto, que governou Atenas entre 546 e 527 a.C., oficializou o culto a Dionísio, o deus grego equivalente ao deus romano Baco, das festas, do vinho, do lazer e do prazer, filho de Zeus e da princesa Semele, o único deus filho de uma mortal.O Carnaval Cristão passa a existir quando a Igreja Católica oficializa a festa, em 590 d.C., cedendo aos anseios populares.

O que era considerado ocasião para a libertinagem passou a ser cerimônia oficial com certos limites estabelecidos para conter a carnalidade do povo: “se você não pode vencer seu inimigo, alie-se a ele”.Em 1545, no Concílio de Trento, o Carnaval é reconhecido como uma manifestação popular de rua, e sua data é fixada em 1582 pelo Papa Gregório XIII, quando da transformação do Calendário Juliano para Gregoriano, sempre no 7º domingo que antecede ao domingo de Páscoa.

No Brasil o carnaval chega em 1723, trazido pelos portugueses das Ilhas da Madeira, Açores e Cabo Verde, com o primeiro registro de baile em 1840, de onde, em 1855, surgiram os primeiros grandes clubes carnavalescos, precursores das atuais escolas de samba.A festa ganhou diferentes cores na celebração popular.

Desde os blocos de rua, com suas manifestações pitorescas e despudoradas, passando pelos bailes de salão, com todos os seus ingredientes de gala, luxo e lixo, e também enchendo as ruas com trios elétricos e foliões de abadá, especialmente no Nordeste, e escolas de samba, mini óperas de rua, que desfilam pelos sambódromos cantando temas que incluem, por exemplo, uma homenagem a Tom Jobim, uma versão alternativa da história do Brasil ou a chamada de atenção à questão ecológica.

Minha lembrança mais remota do carnaval me remete ao Rio de Janeiro, meados da década de 70, quando eu corria apavorado fugindo dos “bate bola”, garotos mascarados que vinham em bandos batendo no chão uma espécie de bixiga de pele curtida que fazia um barulho tenebroso – uma versão tupiniquim do Halloween, com diferença de que não me lembro se eles pediam balas e doces ou apenas tocavam horror.

Em todas as suas manifestações não há como deixar de relacionar o carnaval com a festa da carne, que o relaciona ao hedonismo puro, quando se busca o prazer do corpo acima e antes de tudo, e sugere uma “licença para pecar”, especialmente os pecados sexuais, relacionados com lascívia e luxúria – a Prefeitura de Recife pretende distribuir a pílula do dia seguinte, um contraceptivo de emergência, usado após o “sexo casual”, e que objetiva impedir ou retardar a liberação do óvulo pelo ovário, impossibilitando a fecundação, ou impedir a nidação, fixação do óvulo fecundado no útero (que polêmica, hein?!).

Fica entendido por que depois vem a quarta-feira de cinzas, dia de jejum e abstinência, quando alguns cristãos de tradição católica romana rememoram sua mortalidade, usando as cinzas à luz do simbolismo bíblico para o arrependimento perante Deus.

A quarta-feira de cinzas ocorre sempre um dia depois da terça-feira gorda, o último dia da temporada de Carnaval e também, ou justamente, o último dia em que se pode comer carne, vindo em seguida a Quaresma, quarenta dias de jejum em preparação para a Páscoa.

A festa do carnaval, na cultura cristã católica ocidental, tem seu simbolismo claro: vamos todos morrer, e o melhor que temos a fazer antes disso é mergulhar de cabeça em todos os prazeres possíveis, que sabemos efêmeros e insuficientes para nos conduzir à plenitude da vida, possível apenas na ressurreição.

Considerando, entretanto, que a carne é fraca, celebramos sua festa, mas não sem o cuidado de nos arrependermos, ainda que um arrependimento inconsistente, é verdade, apenas uma preparação para morrer bem, em vez de tomada de consciência para viver melhor.
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Crente é igual baiano

Carnaval tem os que adoram e os que detestam.
E tem os crentes.
Crente evangélico adora tanto detestar o carnaval que não vê a hora que chegue esta época do ano, só para expressar de modo ostensivo o seu descontentamento com o período carnavalesco pelo qual esperou o ano inteiro.
Não faz o menor sentido, eu sei, mas os crentes também não fazem.Igreja evangélica durante e após o carnaval é uma festa só, algumas com fila para se dar testemunho de como lutou e venceu contra as tentações do demônio e suas investidas contra o povo de Deus, que abundam (em mais de um sentido) nesta época, ou para contar como evangelizou o travesti que ia sair de passista da escola de samba tal, minutos antes dele entrar na avenida, e o convenceu a aceitar Jesus, se arrepender e voltar a ser macho.Crente é igual baiano.
O carnaval deles começa uma semana antes e termina uma semana depois que o de todo mundo.Quem vocês acham que são os primeiros a desfilar nos sambódromos? Se disserem que são as escolas deste ou daquele grupo erraram. Antes que a comissão de frente da escola de samba que abre o carnaval ponha o pezinho fantasiado na passarela, com certeza um grupo de oração evangélico já percorreu todo o caminho para fazer a desinfecção espiritual do ambiente.
Depois dos desfiles vem outro grupo, talvez mais especializado, fazer o fechamento e amarrar um ou outro demônio da luxúria que esqueceu de voltar pros quintos depois da terça-feira.E tem os retiros.
Como observador da religião já participei de muita coisa estranha (sempre a convite de alguém que apostou que não devia ser difícil catequizar mais um Índio), mas retiro espiritual de crente eu nunca fui – E nem quero, Deus me livre, Cruz Credo!!!Um dos raros momentos em que penso em me converter é quando cogito a possibilidade do inferno ser um lugar cheio de crentes tocando violão.
Mas parece que nestes retiros inventaram o carnaval gospel, que pelo que eu entendi deve ser parecido com o carnaval do Brasil num universo paralelo de antimatéria.Nestes retiros de carnaval evangélicos tem muita música gospel, muita atividade gospel, muito relacionamento gospel e muita diversão gospel ou seja, um pé-no-saco de chatice que não tem tamanho. E deve ser cheio de crente tocando violão.Só para constar, não que eu, particularmente, goste muito de carnaval. Por centenas de anos meu povo desfilou pelado pelo Brasil inteiro e isto nunca foi considerado festa.


Acauan Guajajara, no e-group Religião é veneno.
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2 de fev. de 2008

Cristão Cartesiano?

Gosto bastante de filosofia! É uma praia que muito me chama a atenção. São tantas vertentes diferentes. Tantos caminhos, tantos modos de pensar, tantas resoluções distintas. Mas, todas envolvem algo em comum: o pensamento. Sem este não haveria sequer Filosofia. Em última instância todos somos filósofos. Ou pelo menos fomos na adolescência. Naquele período de intensos questionamentos. E filosofar é isto: questionar, indagar, pensar.
Gosto do termo reflexivo. E gostei mais ainda do termo "cristão reflexivo". Não quero fazer alusão à denominação, rótulo ou placa. Não tenho esse espírito sectarista, aliás, tenho aversão ao sectarismo (e vez ou outra isso acaba por me tornar um sectário - rs). Estou querendo dizer que últimamente são poucos os cristãos que pensam. Que questionam, que indagam, que buscam conhecimento. A maioria se deleita em experiências místicas e sobrenaturais (não gosto de usar "espiritual" para descrever fenômenos que fogem ao comum. Para mim espiritual é uma condição permanente do ser, ora mais desenvolvida, ora menos desenvolvida). Se satisfazem (e as vezes não) com um "sharabakantas kanthiunévias ripalahiah dekanthas cih", ou com a "unção" da última moda (ou, como dizem, do mais novo Mover de Deus!). E buscam uma "intimidade" com Deus que é traduzida em demonstrações públicas de "espiritualidade", como chorumelas extravagantes, movimentos macacológicos durante a adoração e estripulias impudorosas (não estou a julgar nenhuma dessas manifestações). A questão é que, tudo isso se resume a apenas isso. Esses irmãos tornam-se ovelhas demasiadamente ingênuas, ignorantes e infrutíferas em seu cercos religiosos. Vítimas de lobos indecorosos e gananciosos em sua estirpe. E se ao menos esses cristãos pensassem um pouco? Não teríamos tanta ridicularização no meio Evangélico. São tantas babaquices espalhadas por diversas denominações que isso me assusta. São apenas zumbis que esses líderes do inferno brincam de "vivo", "morto". São massas inteiras. Um povo ignorante e pouco preocupado com a Verdade. Seguem ventos de doutrinas, sofismas e falácias com tanta facilidade que acabam por perder a identidade respaldada pelo Evangelho de Jesus Cristo. Muita coisa que vemos por ai não tem nada haver com as Boas Novas de Cristo. Mas nada mesmo...
Estou lendo sobre o Cartesianismo. Uma linha de pensamento da filosofia que tem por principal representante, Descartes. O Cartesianismo explora o questionamento da Religião, da Política, da Moral, da "verdade". Esse pensamento influenciou os franceses na Revolução, e inspirou tantos outros revolucionários a se posicionarem contra as mazelas em que encontravam-se escravos. O pensamento Cartesiano gera uma insafisfação com o mundo mastigado posto diante de você.
Não tenho gabarito o suficiente para discorrer a respeito do Cartesianismo. E me limito a parar por aqui.
A questão que deixo é: Porque quando as pessoas te olham como "Crente" ou "Evangélico" já pressupõem que você não é muito inteligente? Te vêem como um Fanático não dotado de Cultura? Sequer travam uma discussão política com você por acharem que você não é nem um pouquinho politizado?
Já tive líderes que me achavam insubordinado e rebelde. Não desobediente. Mas, contudente...
Nunca gostei de ser manipulado. O próprio Espírito Santo não me manipula, antes me conduz, me direciona, me compele, me inspira, me atrai, me consola...
Acho que se nós cristãos fossemos mais reflexivos, não caíriamos em tantas tolices como últimamente temos testemunhado.

1 de fev. de 2008

As transgressões da inteligência

É notório e notável que apesar de toda a pirotecnia os computadores não são, em qualquer verdadeira medida, inteligentes. Se parecem ser inteligentes é mérito dos seres humanos que os programam incessantemente a fim de nos deslumbrar, e incessantemente conseguem. Esses seres humanos é que são inteligentes, mas aparentemente não o bastante para serem capazes de transmitir esse dom a seres obtusos como computadores. Matemáticos podem ser ensinados a dançar balé e poetas a programar em Java, mas ainda não conseguimos ensinar um computador a pensar.

Não, é claro, que todos de nós tenhamos tentado.

Em dezenas de laboratórios ao redor do mundo, numa rede irrigada por uma obscena torrente de verbas governamentais e privadas, cabeças dentre as mais inteligentes do planeta dedicam suas redes neurais a destilar a esquiva tecnologia da inteligência artificial – a nova e verdadeira pedra filosofal que deverá, se tudo der certo, soprar espírito no pó pela segunda vez na história.

A cada avanço na tecnologia dos computadores – e os avanços são vertiginosos – o eureka da inteligência artificial parece mais próximo, mas como a tartaruga na proverbial corrida contra Aquiles, esse momento definitivo parece estar sempre um passo infinitesimal além do nosso alcance.

Por que procurar vida inteligente entre computadores? O tentador nos computadores é sua capacidade de processamento, mas o contraponto está na sua estupidez pura e simples. Computadores são por definição burros, dóceis e subservientes. Nada os faz reagir a não ser programas, que são por sua vez longas listas ordenadas de regras. Num sentido muito fundamental, computadores são máquinas movidas a legislação.

A história da busca pela inteligência artificial termina patinando neste atoleiro: não encontramos até o momento uma legislação que os faça agir de forma inteligente (inserir aqui piada aleatória sobre os congressistas brasileiros).

Parte essencial do problema, e nisso concordam todos os pesquisadores, está em que é muito difícil definir com um grau satisfatório de precisão o que seja comportamento inteligente. Simplesmente não chegamos a um acordo sobre o assunto. Cachorros são inteligentes? Polvos? Roteiristas de Hollywood?

Encontro em Douglas R. Hofstadter esta lista de capacidades essenciais do comportamento inteligente:

* de responder a situações de forma muito flexível;

* de tirar vantagem de circunstâncias fortuitas;

* de encontrar sentido em mensagens ambíguas ou contraditórias;

* de reconhecer a importância relativa de diferentes elementos de uma situação;

* de encontrar similaridades entre situações a despeito de diferenças que possam separá-las;

* de estabelecer distinções entre situações a despeito das similaridades que possam relacioná-las;

* de sintetizar conceitos novos tomando conceitos velhos e rearranjando-os de formas novas;

* de produzir idéias inéditas.

O problema desta lista é que, tomada ao pé da letra, ela parece excluir uma enorme proporção do comportamento humano. Será possível ensinar gente de verdade a agir assim? Existirá entre os seres humanos alguma inteligência “natural”?

No campo da inteligência, a tremenda vantagem das pessoas sobre os computadores não está na capacidade de processamento, mas no fato de que aparentemente não pensamos, como eles, a partir de regras. Nosso modo de pensar é analógico, ou seja, pastoso, intuitivo, informe e difícil de sintetizar em laboratório. Não precisamos, como os computadores, de regras que nos ensinem a transgredir determinadas regras a fim de simular comportamento inteligente. Quebrar regras é natural em nós.

O contraponto deste contraponto? A desvantagem de não pensar através de regras é que, ao contrário de nossos irmãos cibernéticos, nós humanos só pensamos quando queremos pensar. A inteligência está pronta mas a vontade é fraca, e em situações de conforto moderado para cima costumamos preferir o ócio e o entretenimento à produção intelectual, à pesquisa e à solução dos problemas da humanidade.

O verdadeiro enigma não está em porque demoramos tanto a obter resultados com inteligência artificial, mas em porque, tendo nesta era tantos recursos sem precedentes e ferramentas poderosas à nossa disposição – digamos, computadores -, recusamo-nos a por em uso a nossa. Usamos o computador para jogar paciência, o processador de texto para imprimir listas de compras, a internet para encontrar pornografia e as horas vagas para consumir o Big Brother. Ninguém em sã consciência deveria nos acusar de comportamento inteligente.

Pensando bem, é muito natural supor que computadores inteligentes tenham assumido e vivamos em ignorante bem-aventurança suprindo energia à Matrix. Ou talvez esta seja uma imagem implantada por roteiristas de Hollywood para que nutramos a ilusão de sermos de alguma forma úteis.

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Para os pensadores e/ou não...

“[…] a eternidade existe, e também a morte. Tais realidades nos ameaçam a cada instante e tornam inevitável o fato de que um dia as enfrentaremos face a face […].

Inegavelmente, as conseqüências são terríveis. As pessoas arriscam uma eternidade de condenação, muito embora a desconsiderem como se não valesse a pena pensar nela, ou como se não fosse possível, ainda que apresente fundamentos sólidos, embora ocultos. Como eles não se importam em saber se é verdadeira ou falsa, ou se as provas são fracas ou fortes, desconsideram as provas que estão diante de seus olhos, recusando-se a olhar, preferindo permanecer na mais completa ignorância. É como se, deliberadamente, escolhessem cair nessa calamidade esperando pelas provas após a morte, agindo de maneira aberta e orgulhosa. Nós, os que pensamos a esse respeito com seriedade, não deveríamos nos sentir horrorizados com tal comportamento?

[…] Quando um herdeiro encontra os documentos que lhe dão direito à sua herança, ele diz que talvez sejam falsos e não valem o esforço de uma olhadela? Certamente, a sensibilidade que o ser humano apresenta com respeito às coisas menos importantes e a insensibilidade que apresenta com relação às coisas mais importantes são evidências de uma estranha desordem.

[…] Imagine um prisioneiro num cárcere - desconhecedor da sentença a que foi condenado e dispondo apenas de uma hora para descobrí-la - sabe que há tempo suficiente para que sua sentença seja revogada. Não seria natural que gastasse aquela última hora jogando algum passatempo, indiferente quanto à situação de sua sentença. Portanto, é totalmente contrário à natureza humana que o homem seja indiferente quanto ao peso que as coisas têm nas mãos de Deus. Não é somente o zelo dos que O buscam que prova a existência de Deus, mas também a cegueira dos que O buscam.

[…] A verdadeira fé nos coloca a obrigação de sempre ter consideração por essas pessoas, enquanto viverem, enquanto forem capazes de receber graça e iluminação, e acreditar que em um breve tempo elas possam ser preenchidas com uma fé maior do que a que possuímos, e que nós, ao contrário, podemos ser atingidos pela mesma cegueira que agora as aflige (*quem pensa estar de pé, cuide para que não caia). Portanto, devemos fazer por elas o que gostaríamos que fosse feito conosco se estivéssimos em seus lugares”.

Trechos retirados do livro Mente em Chamas - Fé para o Cético e Indiferente, de Blaise Pascal

*I Coríntios 10-12 (nota minha)
Retirado do Celva.

Conto: O lixo

Acordei-me sobre um grande monte de lixo. Não conseguia mais ver terra ou água potável. O céu estava coberto por nuvens carregadas de escuridão onde apenas se via o lampejar de diversos relâmpagos. Tudo estava encoberto de lixo. Em uma parte estavam diversas árvores destruídas pelos desmatamentos. Elas estavam em decomposição e com várias fogueiras acumuladas em alguns pontos. Muitos destes pontos de fogo eram enormes. Entre as árvores caídas corriam rios totalmente escuros, cheios de dejetos e lixos flutuantes.
Aparentemente não havia movimento algum sobre ele. Nem as moscas pareciam existir. Nada de vida existia sobre ele. Apenas o cheiro fétido exalado pelas comidas em decomposição. Talvez estas eram as únicas vidas. As microscópicas bactérias que decompunham os alimentos.
Eram quilômetros de lixo que se perdia de vista. E eis que bem distante consegui observar um movimento. Era um animal que parecia muito magro. Sua silhueta de um lado quase se confundia com a do outro lado. Estava com as patas sobre alimentos em decomposição. E devorava o pouco que tinha, aparentemente para resistir a mais um dia em sua sobrevida. Muitos lixos continuavam a se formar sobre restos que já existiam, mas não sabia de onde vinham.
Procurei me aproximar daquele animal e foi quando comecei a perceber que ele não tinha pêlo sobre o corpo magro. Comecei a diferenciar sua silhueta. O focinho que parecia claro a distância, agora não havia mais. Foi então que fiquei totalmente assustado. Não era um animal. Era um homem! Magérrimo. Negro. Com as costelas cobertas apenas por pele, e totalmente nuas. Havia feridas em todo o corpo, onde se podia ver o sangue coagulado. Havia furos pelo corpo no formato de tiros, frutos de alguma guerra que vivenciou. Vergões percorriam toda a sua costa formando pequenos rios de sangue, frutos também da escravização. Mais próximo dele percebia-se o quanto suas chagas eram profundas. A perna esquerda estava mutilada para cima do joelho, onde ele se apoiava na perna direita e os braços sobre o lixo e com a cabeça próxima ao chão, devoravam o pouco de alimento sem decomposição que encontrou.
Que cena terrível. Não conseguia mais olhar para este homem. Virei minha face para o outro lado para não me enjoar com esta cena, e me deparei com um televisor ligado. Mas não havia energia.
Nele passava o noticiário sobre os ricos e milionários vivendo nas mansões mais elegantes do mundo. Outra noticia era os EUA invadindo mais um país do oriente médio, afirmando sobre existência de armas de destruição em massa. Os paises europeus, responsável pelas guerras civis na áfrica apenas estão preocupado com os gastos de suas riquezas internas, frutos das diversas colonizações por todo século sobre os paises pobres. Outra notícia fala sobre os bilhões de dólares que estão sendo gastos em moda, estética corporal, carros e barcos luxuosos pelos ricos. Outra notícia fala sobre os políticos que novamente estão envolvidos em corrupção de desvio do dinheiro público.
A televisão muda automaticamente de canal e nele estava passando um líder religioso que explica a nova maneira de se conseguir riqueza, carros e uma vida cheia de ouro e prata a partir de uma nova campanha para mover o braço do seu deus. Milhares de pessoas estão ajoelhados diante deste líder que tinha duas faces. Na que ficava de frente do povo percebia se a face de uma ovelha que dizia frases suaves e convincentes, dizendo sobre como fazer com que o deus que ele servia, pudesse ajudá-los a viver como os ricos. Para isto uma quantia de dinheiro deveria ser ofertado, ou algum sacrifício para acalmar este deus irado. Percebia se que as pessoas que estavam de frente com a face de ovelha tinham sob os seus pés no chão, como desenhos, todas as promessas que aquela suposta ovelha oferecia como resposta do seu deus a fidelidade deste povo.
Então olhei para a outra face. Era a de um lobo voraz com os olhos aguçados e suas presas escorriam um liquido que expressava o prazer que ele sentia sobre suas presas. Mas diante da face do lobo percebi que havia uma multidão. Mas uma coisa me chamou a atenção. A mesma multidão que estava diante daquela face era a mesma que estava do outro lado. Era como um espelho refletindo esta multidão.
Mas a diferença era que elas estavam nuas, com chagas por todo o corpo, e estavam chorando, produzindo um choro terrivelmente desesperador.
Percebo então que durante estes programas que mostravam a parte mais fútil do sistema econômico, político e social que vivemos, crianças negras subnutridas, indígenas, e de outras nações começaram a sair por de trás do televisor, engatinhando, mas elas não ficavam muito tempo diante dos meus olhares, pois sempre aparecia um corvo que dava um vôo rasante pegando aquela criança que acabara de sair por de trás do aparelho, e o levava para um lugar atrás de um monte.

Então decidi ir ao alto deste monte e resgatar estas crianças. Ao chegar no cume percebo algo terrível. Não havia mais crianças vivas. Eram milhões de corpos em decomposição. Comecei a identificar os corpos a partir das únicas coisas que não se decompunham com os seus corpos. Eram bandeiras de suas prováveis nações. Nos corpos negros que tinham vários vergões nas pernas e traços de sangue sobre as bandeiras como se tivessem levado chicotadas, consegui decifrar as bandeiras africanas de diversos países como Angola, Moçambique e Quênia. Nos corpos de pele vermelha consegui ver cocais sobre suas cabeças, com bandeiras brasileiras e de outros paises da América Latina. Eram todos os corpos gerados a partir das colonizações européias sobre os povos americanos e de senhores dominadores sobre seus escravos. Havia corpos de todos os lugares. Muitos tinham sobre seus corpos a bandeira de Israel. Talvez eram os judeus que foram mortos nos diversos campos de concentrações alemães. Havia um silêncio aterrorizante. Milhares de corpos e nenhum sinal de vida.
Sai de diante daquela imagem terrível e corri em direção aquele único corpo que tinha vida para ajudá-lo. Quando estava me aproximando de onde o tinha visto, ele não estava mais lá mas no lugar uma cruz fincada sobre o lixo. E nela estava pregado aquele mesmo homem que havia visto de quatro e se alimentava de restos de alimento em decomposição.
Ele estava morto!
Quando me aproximei percebi ele com as mesmas chagas e faltando parte da perna esquerda. Seus olhos estavam abertos e consegui perceber que não tinha o globo ocular. Ele era cego! Mas os seus olhos ainda produziam lágrimas. Estas lágrimas escorriam pelo rosto e começaram a cair no chão e a formar uma poça de água límpida. Em torno desta poça começou-se a formar pequenas plantinhas que começaram a crescer e formar pequenas árvores com diversos frutos. Frutos deliciosos.
Os corvos já não viam mais pegar as crianças que saiam do televisor mas começaram a posar sobre a cruz e a comer levemente partes do corpo que estava ali pregado. Tentei espantar os corvos mas foi em vão minhas tentativas. Mais corvos continuava a posar sobre a cruz e a se alimentar daquele corpo.
Olhei para trás e vi as crianças saindo por de trás do televisor o qual ainda passavam as mesmas notícias sobre as corrupções feitas pelos humanos. Como estavam com muita fome decidi pegar os frutos que foram formados ao pé da cruz e levar a elas. Peguei uma criança totalmente desnutrida. Nela havia chagas pelo corpo todo, o qual manchou toda a minha pele e roupa de sangue. Levei o fruto até sua boca. Ela começou a comer aquele fruto e começou a sumir as chagas pelos seus corpos. Começava a se formar carne debaixo daquela pele que ficava sobre os ossos. Foi então que vi um dos corvos caírem de cima da cruz totalmente morto. A cada criança que eu dava um dos frutos, um dos corvos caia morto de cima da cruz.
Não saia mais crianças por de trás do televisor. Olhando novamente para a imagem que passava nele, começou a passar uma noticia sobre uma religiosa que deu a sua vida entre os pobres asiáticos. Mostrou então um negro falando para o povo americano contra o racismo e pela liberdade. Mostrou um líder asiático liderando uma revolução em paz para ajudar o povo pobre. Vi um outro negro libertando pobres negros em um país africano. Vi várias notícias sobre pessoas que participaram de alguma ação pelos excluídos. Era desde uma pequena noticia sobre uma senhora que ajudou sua vizinha que passava necessidades até grandes lideres que participaram de libertações de nações.
Feliz, me virei para a cruz, e já não vi mais o corpo que estava pendurado sobre ele. Havia apenas a cruz vazia.
Onde estava aquele homem?
Percebi uma luz que vinha por traz de mim. Virei-me e foi quando vi um homem sobre o mesmo monte que havia estado anteriormente. A luz vinha dele como se fosse a de um grande astro solar. Corri para próximo deste homem subindo aquele monte novamente, mas com receio de ver novamente aquela imagem dos corpos. Mas algo me dizia que não era mais assim. Aproximando-se dele eu vi que o monte dos corpos não existia mais. No lugar várias pessoas que aparentemente refletiam a luz vinda do homem que estava em cima do cume. Aproximei-me dele e vi o mesmo homem que estava na cruz agora com o corpo restaurado, podia ver seu globo ocular e percebi que sua perna esquerda estava lá.
Ele pediu para que me levanta-se. Mas eu já estava de pé?

Baseado em Mt 25:31-44, Isaias 53, Lucas 7:15-23, Ezequiel 37:1-14, Mt 27:45-56.
[Suênio Trindade Alves]
Retirado do blog Nossos Trapos.

Não mentirás

Um sujeito se dirigiu à atendente da casa lotérica:

- Olha, não tenho a menor idéia sobre quais números escolher para comprar um bilhete da Loteria Federal. Você poderia me ajudar?

- Claro, respondeu ela, vamos lá. Durante quantos anos você freqüentou a escola?

- 8

- Perfeito, temos um 8. Quantos filhos você tem?

- 3.

- Ótimo, já temos um 8 e um 3. Quantos livros você já leu até hoje?

- 9

- Certo, temos um 8, um 3 e um 9. Quantas vezes por mês você faz amor com sua mulher?

- Caramba, isso é uma coisa muito pessoal - diz ele.

- Mas você não quer ganhar na loteria?

- Está bem, 2 vezes.

- Só? Bom, deixa pra lá...

- Agora que já temos confiança um com o outro, me diga quantas vezes você fez troca-troca na infância.

- Qual é a sua? - diz o homem. - Sou espada!

- Não fique chateado! Vamos considerar então zero vezes. Com isso já temos todos os algarismos: 83920. O número completo!

O sujeito então comprou o bilhete que correspondia ao número escolhido. No dia seguinte, foi conferir o resultado e o bilhete premiado foi o de n.° 83921. Cheio de raiva, comentou:

- PQP! Por causa de uma mentirinha besta eu não fiquei milionário...

Retirado do excelente Pavablog.